Refrigerante zero faz mal para os dentes? O açúcar saiu, o ácido ficou
A lata é prateada, o rótulo diz zero, e toda vez que você abre uma no lugar da versão com açúcar sente uma pequena virtude secreta. Às quatro da tarde, há três delas na mesa. Nenhuma alimentou uma única bactéria da cárie. As três passaram o dia fazendo outra coisa com os seus dentes, e essa parte não está no rótulo.
Refrigerante zero faz mal para os dentes? O mito diz que não: sem açúcar, sem dano. As evidências dizem que o mito está meio certo, e a metade em que ele erra é a metade que não cresce de novo.
A metade do mito que é verdade
Quem faz a cárie são as bactérias. Elas fermentam o açúcar em ácido junto ao dente, e o ácido abre um buraco. Tire o açúcar da bebida e essa fábrica específica fica sem nada com que trabalhar. Nesse ponto, o zero do rótulo é honesto: se a escolha é entre as duas latas, a diet é o risco menor de cárie.
O problema é que a cárie é só uma das maneiras de uma bebida levar embora o esmalte.
O ácido não precisa de bactérias
Os dentistas chamam a segunda maneira de erosão dental: esmalte dissolvido diretamente pelo ácido, sem nenhuma bactéria envolvida. O esmalte é um mineral e começa a perder esse mineral quando o líquido ao redor cai abaixo de um pH de cerca de 5,5. Em 2016, uma equipe da University of Alabama at Birmingham comprou 379 bebidas em lojas comuns e mediu cada uma três vezes logo depois de aberta. Delas, 93 % estavam abaixo de pH 4,0, o nível que os autores chamam de potencialmente danoso. Uma cola comum marcou 2,37. A versão diet, 3,10. A versão zero açúcar, 2,96. A água da torneira, 7,20 (Reddy et al. 2016).
A escala de pH conta em potências de dez. Então a cola diet é cerca de cinco vezes menos ácida que a comum, o que parece boa notícia até você a colocar ao lado do esmalte: a 3,10 ela ainda é cerca de 250 vezes mais ácida que o ponto em que o esmalte começa a ceder. Tirar o açúcar mudou o sabor e as calorias. O ácido ficou quase onde estava.
Como ficam anos disso
Em 2013, Mohamed Bassiouny, da Temple University, na Filadélfia, publicou na General Dentistry três pacientes lado a lado. Um tinha usado metanfetamina. Outro tinha usado crack por anos. A terceira, uma mulher na casa dos trinta, não tinha usado nenhum dos dois: ela bebia cerca de dois litros de refrigerante diet por dia havia três a cinco anos. Os dentes dela mostravam erosão do mesmo tipo e da mesma gravidade que os dos outros dois. São três pessoas, não um ensaio, e a indústria de bebidas respondeu que o refrigerante dificilmente seria a única causa. O caso não mede um risco. Ele mostra como fica a química descrita acima quando ninguém a interrompe.
Os números maiores apontam na mesma direção. Uma revisão de 2024 de Göttingen reuniu 71 estudos sobre o que acompanha o desgaste dentário erosivo: bebidas gaseificadas aumentaram as chances em 1,43 vez (Marschner et al. 2024). Uma análise de 2026 com 24 estudos e 21 541 adolescentes encontrou erosão em 37,6 % deles, e as chances quase dobravam entre os que bebiam refrigerante (Juárez López et al. 2026). Nenhuma das duas revisões separa diet de comum, e é exatamente esse o ponto. O esmalte não lê o rótulo.
O hábito importa mais que a lata
Aqui o risco fica desequilibrado. Uma lata no almoço dá à sua saliva alguns minutos de ácido e depois o resto da tarde para se recuperar. A mesma lata bebericada das duas às cinco dá ao seu esmalte três horas de ácido e nenhuma recuperação. Num estudo de laboratório, o esmalte perdeu mineral em todas as bebidas testadas, e os autores observaram que encurtar o tempo que a bebida fica na boca, com saliva ou enxágue, parecia ajudar (von Fraunhofer e Rogers 2005).
Talvez você tenha trocado pelo zero justamente porque queria fazer o certo pelos seus dentes. Muita gente fez isso. A troca fez metade do trabalho. A outra metade está em como você bebe: com a refeição, e não ao longo da tarde, sem segurar a bebida na boca, e depois um copo de água pura.
Se o ácido já afinou o seu esmalte, com bordas que parecem vítreas ou dentes que doem com o frio, essa é uma pergunta para o dentista, não para um blog. Para a escovação diária, fazemos a SENSITIV, uma escova com cerdas DuPont Tynex que a ficha do produto descreve como 48 % mais macias que o náilon padrão. Nenhum dos estudos acima a testou, e ela não desfaz a erosão. Amanhã, experimente uma coisa só: beba a lata no almoço e termine com água.
Zero açúcar protege você das bactérias. Do ácido, só o relógio protege.