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Ingrediente sob a lupa · 6 min

O que é goma xantana? Sua pasta de dente fica em pé graças à gosma de uma doença do repolho; e segurá la é o único trabalho dela

Começo da manhã numa horta no interior da Alemanha: uma mulher de jaqueta de couro escura e gasta, agachada entre fileiras de repolhos, ergue contra o sol baixo uma folha externa cuja borda traz uma mancha escura em V de podridão negra.

Coloque uma linha de pasta de dente na escova e repare no que ela não faz. Ela não desaba. Não escorre entre as cerdas nem pinga na pia. Fica ali, uma pequena crista, como se fosse sólida. Aí você começa a escovar e, em dois segundos, a mesma pasta flui como líquido por cada espaço entre os dentes. Você já fez isso dez mil vezes e nunca perguntou quem arranjou as coisas assim. A resposta é a goma xantana.

Provavelmente você pulou esse nome no verso do tubo. A origem dela não é um mineral, uma planta ou um derivado de petróleo. É uma bactéria, Xanthomonas campestris, a espécie por trás da podridão negra do repolho, a doença que escurece as nervuras da folha da borda para dentro.

O que é goma xantana e de onde ela vem?

Nos anos 1950, no Northern Regional Research Laboratory do Departamento de Agricultura dos EUA, em Peoria, Illinois, uma química chamada Allene Jeanes procurava coisas úteis que os micróbios fazem a partir do açúcar. O trabalho dela mostrou que a Xanthomonas campestris transforma glicose em grandes quantidades de um polissacarídeo espesso e escorregadio, a própria gosma da bactéria. A indústria achou uso para ela em quase tudo: molhos de salada que não desandam, sorvete sem cristais de gelo, molhos, cosméticos e pasta de dente. O programa Lemelson MIT chama a goma xantana de polissacarídeo mais produzido em massa que existe. Jeanes entrou para o National Inventors Hall of Fame em 2017.

Antes de jogar o tubo no lixo: a regulamentação de alimentos dos EUA para a goma xantana exige que a cepa de produção seja não patogênica e não tóxica, e que a goma pronta não tenha células viáveis. O que chega ao seu tubo é a gosma, não a bactéria. Mesmo assim, repare na assimetria. Um micróbio que arruína uma lavoura virou aquilo que segura a sua manhã, e ninguém planejou isso. Ele simplesmente fazia um truque físico melhor do que as alternativas.

O que a goma xantana faz na pasta de dente

O truque tem um nome sem graça: pseudoplasticidade. Em repouso, as longas cadeias de xantana se emaranham e prendem água, e a pasta se comporta como um sólido macio. Ela fica em pé na escova e mantém os grãos do abrasivo, a sílica, em suspensão, em vez de deixá los afundar no fundo do tubo. Sob força, o aperto no tubo, a fricção das cerdas, o emaranhado se alinha, a pasta afina e flui. Parou de mexer, ela engrossa de novo. Estudos de reologia de soluções de xantana descrevem exatamente isso: forte afinamento sob cisalhamento, uma tensão de escoamento acima de uma concentração crítica e rápida recuperação da estrutura assim que a força para.

Esse é todo o trabalho. A goma xantana não clareia, não mata bactérias e não repara o esmalte. Ela é o palco, não o ator. O valor dela está em você nunca notá la: uma pasta que se separa numa poça de líquido e num bolo de areia é uma pasta que ninguém termina, e um tubo esquecido na gaveta não protege nada.

Uma prancha montada: sobre uma borda de pedra clara, um cubo de gel transparente mantém minúsculos grãos brancos suspensos no lugar, ao lado de uma folha de repolho com a borda escurecida. As palavras “Segura a forma, não trata nada”, com anos 1950 para o laboratório de Peoria, 30, 43 e 65 para os pacientes de três estudos sobre boca seca, e 60% contra 15% para o chiclete contra o substituto de xantana.
A goma xantana em três números: descoberta nos anos 1950 num laboratório do Departamento de Agricultura dos EUA em Peoria; em três estudos de substitutos de saliva com xantana para boca seca, 30, 43 e 65 pacientes, mal superou o placebo; 60% dos pacientes em diálise preferiram chiclete sem açúcar, 15% o substituto (Jellema 2001; van der Reijden 1996; Bots 2005).

Goma xantana ajuda na boca seca?

Aqui a história vira, e aqui a honestidade custa alguma coisa. A goma xantana deixa a água espessa e escorregadia, um pouco como a saliva. Então a medicina a testou como saliva artificial para pessoas cujas glândulas já não mantêm a boca úmida. Os estudos foram pequenos, e os resultados, desanimadores.

Em Amsterdã, 30 pacientes com boca seca após radioterapia para câncer de cabeça e pescoço usaram, em turnos, um substituto de saliva à base de xantana e um placebo; a secura melhorou com os dois, quase na mesma medida (Jellema 2001). Um estudo duplo cego anterior com 43 pessoas com síndrome de Sjögren concluiu que nem os substitutos de polímero nem o placebo foram realmente eficazes (van der Reijden 1996). E quando 65 pacientes em diálise compararam por seis semanas um substituto de saliva com xantana e um chiclete sem açúcar, 60% preferiram o chiclete e 15% o substituto (Bots 2005).

A lição não é que a xantana seja inútil. É que estrutura não é função. Um gel pode imitar a sensação da saliva sem fazer o que a saliva faz, e mastigar, que põe as suas próprias glândulas para trabalhar, ganhou dele. Se a sua boca está seca, o espessante da sua pasta de dente não está tratando isso, seja lá o que a embalagem em volta pareça prometer.

Agora olhe para o seu próprio tubo. Vire o e procure a goma xantana na lista. Ela deve estar em algum lugar no meio, entre o adoçante e o aroma, sem dizer nada. Esse silêncio é o ponto. O que importa para os seus dentes é o que toca o dente: o abrasivo, os ativos, por quanto tempo e com que delicadeza você escova. A goma só garante que tudo isso chegue à escova numa peça só.

A goma xantana está na lista de ingredientes de nove pastas de dente Das Experten, do SCHWARZ ao INNOWEISS, pelo mesmo motivo que está em quase todo tubo: manter a pasta unida. Não afirmamos que ela trate boca seca, gengivas ou esmalte, e nada neste artigo diz mais sobre as nossas pastas do que essa única linha da fórmula.

Uma bactéria que escurece o repolho mantém a sua pasta de dente em forma. É um contrarregra perfeito, e os estudos deixam claro que ele nunca deve ser confundido com o ator.